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Alquimista de Sons

Jeguaka | 05.07.09 | Postagens | 2 Comentários

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No teatro, no cinema e nas pistas, DJ Quizzik mistura linguagens e cria novo papel profissional como trilheiro.

A genética sinalizava outras direções. O garoto cresceu entre os estudos científicos do pai e a musicalidade clássica da mãe. A puberdade em Brasília provocou mutações. Cristiano Portilho arquitetou aqui um outro personagem para si sobre os tablados da noite da capital. Atualmente, ele passa por mais um estágio de transformação. De figura carimbada nas pistas, Quizzik elabora novo papel: o de DJ trilheiro.

O roteiro de Quizzik começa em Rio Verde, no interior de Goiás. A árvore genealógica plantada por lá levou os pais a escolherem a cidade como berço do ruivinho que vinha ao mundo. A profissão paterna conduziu andanças do clã Portilho de São Paulo aos Estados Unidos. Pararam um pouco mais em Brasília. O menino brincava de carrinho no quarto, mas sabia exatamente o momento do erro das alunas da mãe pianista.

A infância foi se despedindo, e Cristiano, aos 12 anos, arrumava as malas para mais uma temporada — de um ano — na terra do Tio Sam. É nessa época que o rock e o hip hop invadiram a bagagem. O adolescente voltou para a capital sonhando em tocar guitarra e bateria. Entrou para a Escola de Música, e as festinhas de melô e dance music despertaram outros interesses sonoros. Cristiano gravava programas de rádio. Picotava trechos, remendava fitas-cassetes e “fabricava” música dançante. Ali, juntava cromossomos. Unia a inspiração científica e a musical.

Ele pensou em engenharia aeronáutica. Cursou seis semestres de física. Mas acabou se formando mesmo em arquitetura. Descobriu a noite. A eletrônica pulsava nos subterrâneos e galpões da cidade nos anos 1990. O batismo como DJ só veio depois de encontrar os padrinhos, André e Pedrinho, respectivamente Isn’t e The Six, a dupla faz parte da gênese da pista brasiliense. “Batizou” vários DJs. “Pedia para eles gravarem fitas. Ficava de maria picape. Eles não davam o nome das músicas (para não entregar o ouro). Até hoje, depois de muita pesquisa, só encontrei o título de duas faixas”, conta.

Performático
A performance sempre surpreendente de Isn’t e The Six instigava Quizzik. A primeira cena foi por acaso. A mulher, arquiteta, cursava teatro e trabalhava em um curta-metragem como projeto final. Quizzik desempenhou papel de DJ figurante, mas quase fez das filmagens uma festa. “Tocava músicas do Patife e, no meio, resolvi colocar uma minha. Achei que ninguém estava gostando, e botei Patife de novo. A diretora pediu: ‘Coloca aquela que você tocou antes’. No final, as pessoas reproduziam a melodia e o som.”

O talento musical piscou no currículo teatral. Em 2006, cinco anos de pista, Quizzik dividiu a trilha com uma banda na peça Medeia, dirigida por Luciana Martuchelli. “Ele escreve sem pontuação, com muitas quebradas. Tentei complementar.” Admirável ainda, de Miriam Virna, também em 2007, apresentou mais um desafio a Quizzik: produzir uma trilha original. No palco, o DJ misturou-se aos atores, sentados com laptops que passavam a leitura do texto. “Foi um trabalho milimétrico. Quando a atriz se transformava em outro personagem em cena, a luz e a música também mudavam.” A peça teve nova adaptação neste mês, e foi rebatizada de Admirável e só para selvagens.

Adaptação do baSiraH em 2008 para o texto de Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos, 2 entrou no currículo na “cara-dura”. Quizzik ofereceu gentilmente os seus serviços para os integrantes do grupo pelo Orkut. “A música tinha que ser alta, como se fosse um personagem no palco”, observa. “A diretora pediu para que não tivesse melodia nenhuma. A ideia era trazer esse sentimento de estranheza, como em um redemoinho, um ralo de pia.” No próximo dia 3, estreia mais uma peça com trilha do DJ múltiplo, Olhos ordinários, dirigida por Adalto Serra, e encenada pela Cia. Urutu + 2.

Set de cinema

O cinema também o convocou para o papel de DJ trilheiro. Quizzik embalou o curta Olhos nos olhos, contemplado com o prêmio da Câmera Legislativa na categoria 16 milímetros do Distrito Federal na 40ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 2007. Deus-arma, inédito foi captado em digital mas é adaptado para película em 35 milímetros. Arquiteto concursado do Governo do Distrito, atualmente Quizzik estuda artes cênicas na Universidade de Brasília e também curte a ideia de atuar. “Tenho uma ânsia por me expressar seja musicalmente, atuando, seja dançando. Sou um personagem em construção.”

* por Daniela Paiva

* Matéria Fonte no Correio Braziliense (foto)

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