
Texto extraído do livro A Conexão Planetária - O mercado, o ciberespaço, a consciência. Pierre Lévy (Ed. 34)
” Não importa o que pensemos, que sejamos contra ou a favor, devemos admitir que a maior parte dos indícios de que dispomos apontam para um futuro cada vez mais marcado pelo mercado capitalista, a ciência e a técnica. Nada mostra, ao contrário, que essas forças - que forjam e unificam o devir coletivo humano há pelo menos quatro séculos - apresentem uma perda de velocidade. Uma vez que constatamos isso, uma escolha se abre para nós : ou denunciar e criticar essa tendência irreversível ou tentar compreendê-la e dar-lhe sentido. A atitude crítica se voltou para o passado. Ela produz uma consciência cada vez mais esquizofrênica e infeliz, pois cada um de nós, à sua maneira, participa ativamente desse movimento denunciado. Por outro lado, a legitimidade dessa atitude crítica é amplamente usurpada. Ela repousa sobre uma assimilação enganadora em relação à grande crítica filosófica dos séculos XVII, XVIII e XIX, que era generosamente orientada para o futuro, opunha-se ao conservadorismo e denunciava as forças que freavam a caminhada da humanidade em direção à sua emancipação. Em contrapartida, a maior parte da crítica contemporânea da globalização capitalista, da cibercultura ou da tecnociência, infelizmente, trabalha mais para ampliar o ressentimento e o ódio do que para promover uma visão positiva do futuro. Ê justamente o movimento irresistível em direção ao futuro - a tendência efetivamente em curso - que ela condena. A crítica era progressista, tornou-se conservadora. Era visionária, hoje caminha de costas para o futuro. Uma outra atitude, a que me esforço por adotar aqui, se defronta abertamente com o movimento real da evolução em curso e tenta discernir seu sentido mais favorável, a fim de fazê-lo surgir. Não é senão nos inserindo, tanto intelectual quanto afetivamente, na corrente que nos leva, que poderemos orientá-la, tanto quanto for possível. Não se trata, evidentemente, de negar os aspectos caóticos e dolorosos da realidade: sofrimentos, conflitos, lutas de poder, exclusões, injustiças, miséria, desparecimento de modos de vida e de culturas tradicionais, unidimensionalidade de uma visão banalmente econômica ou tecnocientífica do mundo… Mas o fato da realidade apresentar aspectos desprazerosos (e certamente abertos a muitas melhorias) não deve nos impedir de compreender sua significação e de viver plenamente sua riqueza. Alguns querem desencorajar a familiarização com o mundo que surge, sob o pretexto de que ele não seria “perfeito”. Nesse sentido, todas as sociedades de todos os tempos seriam condenáveis e os homens seriam sempre culpados pela felicidade de nelas viver. Lanço de volta aos intelectuais críticos seus argumentos : é precisamente porque não participam plenamente das correntes mais vivas do universo contemporâneo que certos grupos humanos sofrem mais que outros. Uma das melhores maneiras de incitar os seres humanos a entrar em ressonância com o movimento do mundo é dar um sentido a esse movimento - e não difamá-lo. Pintando a realidade da maneira mais sombria (como muitas mídias o fazem), organizando a recusa ao movimento real, fabricando uma consciência esquizofrênica que odeia o mundo que a alimenta e que habita, esses intelectuais não ajudam as pessoas às quais elas se dirigem : contribuem para desencaminhá-las. Inversamente, e seguindo o exemplo de numerosos pensadores e filósofos, tento reconciliar meus semelhantes com seu próprio mundo e, assim, ajudá-los a viver. Isso não pode ser feito a não ser valorizando as dinâmicas mais positivas do universo contemporâneo, mesmo que essa positividade ainda seja somente virtual. “
.
Tags: Budismo, Cibercultura, Consciência, Filosofia, Mídia, Pierre Lévy, Reflexão, Sociedade
Texto muito conformista. E não reflete que “a grande crítica filosófica” iluminista e “libertadora” foi o início da prisão disso que é hoje “irresistível” e “irreversível”…
Irreversível… irresistível… inexorável. Vocabulário recorrente das teses que querem ganhar no grito, lançando às manifestações marginais, questionadoras, sólidas e/ou singulares a pecha de vencidas, ultrapassadas, anacrônicas, desatualizadas, retrógradas… Como se nunca houvesse espaço para o novo ou para a permanência do que é muito bom apesar de antigo. Discurso replicado há décadas com evidente pretensões políticas de desqualificação do que e de quem se opõe ao objeto de sua exaltação.
É o que aí está! Adapte-se e “reconcilie-se” ou cale-se porque atrapalha??? Fala sério!
Esse texto é pelo fim da diversidade (de opinião, inclusive), pela omissão, pelo silêncio, pelo esmorecimento da luta pelo que se crê e, já dito, pelo conformismo. Não consigo entender sua conexão com a proposta do site ditada na definição da palavra resgate (ali em cima). Já li coisas muito mais intrigantes e indutoras de relexão por aqui.
E sigo aberto a opiniões contrárias. Respeito.